O jornalista e crítico sergipano Luduvice José escreveu sobre o CD gravado no Festival de Verão Salvador e lançado em Março desse ano. Confira:
ADELMARIO COELHO TRANSFORMOU O VERÃO DA BAHIA EM FESTIVAL DE FORRÓ
Por Luduvice José (Jornalista e crítico de Arte)
Lançar disco e fazer sucesso é marca registrada do cantor Adelmario Coelho. Forrozeiro até a alma, tem se mantido fiel a princípios e valores da musicalidade nordestina, orgulhando o papa Luiz Gonzaga, esteja onde estiver no mundo espiritual. Essa faceta fidedigna é justamente o que coloca Adelmario, inegavelmente, como o forrozeiro de maior destaque contemporâneo deste País. Tem mais, baiano, residindo em Salvador, caixa de ressonância dos mais expressivos movimentos musicais das última décadas, não se deixou levar pelos constantes dialetos surgidos em cada esquina soteropolitana. Ao contrário, inseriu no forró autêntico, os elementos que nunca o arranham, mas o repaginam sem perder o tônus de autenticidade, pontificando como sempre o pé de serra com roupagem encorpada pela miscigenação das cordas e metais, mas mantendo de forma explícita a marca viva e constante da zabumba, sanfona e triângulo.
Nas artes plásticas se leva em conta na crítica a fidelidade tonal aliada ao grafismo, equação que explica a identidade do artista. Na música o Adelmario Coelho pontifica por uma identidade incontestável, testada por qualquer ouvido, o que se traduz pela relevante identificação imediatados seus 17 discos, marcando por isso, 16 anos de carreira profissional.
Olha que eu conheço Adelmario Coelho dos velhos tempos do Forrozão da Rua de Siriri, espécie de ressaca junina que acontecia em Aracaju. Ele marcava presença trazendo gravações em fitas antevendo projetos de chegar ao disco. Como sempre, a seletividade era presença forte e indiscutível, um faro natural que detinha e que foi a cada ano se depurando, o que lhe valeu o título de FAREJADOR DE FORRÓ, que bem lhe cabe.
Acompanhando essa carreira vi cada passo crescente. Nunca foi um meteoro. Sempre fooi comedido dentro do arrojo natural de quem sabia das limitações de um início de trabalho e de como necessário se faz sedimentar cada passo. Notadamente para não desistir do fazer autêntico e continuar fiel às raízes, não levando em conta os acenos voluptuosos das deformações que desencadearam conta o forró, numa deturpação sem precedente, uma busca desenfreada por um sucesso de mau gosto, empreendido por bandas que surgiram aos borbotões dos mais variados rincões, infelizmente potencializando letras chulas e repetitivas melodias de parcos recursos, monocórdicas ao extremo por se lhe faltarem o cerne, o miolo, a consciência musical, pelo descompromisso com padrões deixados por Luiz Gonzaga, Anastácia, Marinez, Trio Nordestino e tantos forrozeiros, conservados por Dominguinhos, Nando Cordel, Jorge de Altinho, Alcimar Monteiro.
Agora Adelmario Coelho nos chega e presenteia a musica brasileira com um CD gravado ao vivo. Algo contundentemente importante para o forró, pelo destaque onde ele colocou o segmento com sua presença no Festival de Verão de Salvador em 2009, figurando em altíssima condições na multifacetária musicalidade baiana, mostrando que o forró está intrinsecamente na alma popular, fato constatado pela resposta eufórica do público que acompanhou, engrossando o coral afinado, promovendo calor humano ao disco, que primou pelo seleto repertório, configurando como o 17 CD da carreira consolidada do forrozeiro, orgulho dos baianos e de todos os brasileiros comprometidos com o bom gosto, seriedade e com a nordestinidade universalizada do forró que Adelmario tem promovido.
Some-se ao repertório garimpado, a magnificência da banda, dardejando nas variações, passeando numa instrumentalização harmônica pela escala musical, disciplinada sem abandonar os acordes improvisados pela genialidade dos músicos e extremamente fiel à originalidade forrozeira, mostrando com responsabilidade, o compromisso com a boa música, tornando o resultado não como mais um CD da carreira do Adelmario, mas como um momento de grata representatividade para a música popular brasileira, comandado pelo grande cantor e intérprete, que colocou a alma por inteira nessa realização.
Aqui para nós, as variações conseguidas pelo baixista têm me deixado encantado, nas subidas e descidas tiradas do instrumento com maestria, promovendo uma marcação espetacular que empolga os meus ouvidos exigentes, acostumados à boa música.
Realmente, Adelmario Coelho conseguiu no verão da Bahia promover um festival de forró. De forró autêntico.
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